40% dos Apostadores Portugueses Usam Sites Ilegais — Os Dados
Há um número que deveria estar em todas as discussões sobre apostas em Portugal, e quase nunca aparece: 40% dos portugueses que apostam online fazem-no em plataformas ilegais. Não é uma estimativa vaga — é o resultado de um estudo da AXIMAGE para a APAJO, com 1 008 entrevistas realizadas em junho de 2025.
Entre os mais jovens, a situação é ainda pior. Na faixa dos 18 aos 34 anos, a percentagem sobe para 43%. E talvez o dado mais revelador: 61% dos utilizadores de operadores ilegais não sabem que estão a cometer uma infração. Acham que estão a usar uma plataforma normal, quando na realidade apostam sem qualquer proteção legal.
Acompanho este mercado há nove anos, e a persistência do jogo ilegal é o problema mais frustrante do setor português. Desde 2019, quando a APAJO fez o primeiro estudo deste género, o indicador ronda sempre os 40%. Não melhora. As casas de apostas ilegais em Portugal continuam a operar, a captar clientes e a movimentar dinheiro fora do radar das autoridades — a APAJO estima que as receitas brutas do mercado ilegal se situem entre 250 e 500 milhões de euros por ano.
O Que Acontece Quando Apostas Num Site Sem Licença
Vi dezenas de relatos nos últimos anos, e o padrão repete-se. O jogador regista-se, deposita, aposta durante semanas ou meses sem problemas. Quando tenta levantar uma quantia significativa — 500, 1 000, 2 000 euros — a conta é bloqueada sem aviso. O suporte não responde. O dinheiro desaparece.
Pedro Hubert, diretor do Instituto de Apoio ao Jogador, descreve a situação em termos claros: “Nos sites ilegais impera a lei da selva — não existe política de Jogo Responsável, o dinheiro pode ser retido e os jogadores ficam totalmente desprotegidos.” Não há autoexclusão, não há limites obrigatórios, não há regulador a quem reclamar.
Os dados confirmam esta realidade. O Portal da Queixa registou 2 090 reclamações de jogo online ilegal em 2025, com a MostBet a concentrar 42,58% das queixas. Os utilizadores de plataformas ilegais gastam mais: 20% gasta acima de 100 euros por mês, contra apenas 6% nos operadores legais. Sem ferramentas de controlo, os limites diluem-se.
E há a questão legal. Apostar em sites sem licença portuguesa constitui uma contraordenação, com coimas que podem ir de 2 500 a 25 000 euros. A probabilidade de fiscalização individual é baixa, mas o risco existe — e não desaparece por ser ignorado.
Como os Jogadores Chegam aos Operadores Ilegais
A pergunta que me fazem é: se estes sites são ilegais, como é que tanta gente os encontra? Os dados do estudo AXIMAGE dão a resposta. As recomendações de amigos são o canal principal (42,1%), seguidas das redes sociais (36,8%), televisão (26,3%) e motores de busca (15,8%).
A publicidade nas redes sociais é o fator que mais cresceu nos últimos anos. Pedro Hubert alerta que “o que me preocupa mais que tudo é a publicidade nas redes sociais, no jogo online, pelos ditos influencers, youtubers, em que tudo o que é ética e regulação vai para lá do que é possível dizer.” Influenciadores promovem códigos de registo de operadores sem licença, frequentemente com promessas de odds mais altas e bónus generosos.
Há uma dinâmica perversa nisto: como os operadores ilegais não pagam o IEJO de 8% sobre as apostas, conseguem efetivamente oferecer odds mais atrativas. O jogador que compara uma odd de 1.90 no mercado legal com 2.05 no ilegal vê uma diferença imediata — mas não vê o risco de nunca receber o pagamento se ganhar.
O Que o SRIJ Faz Para Combater o Jogo Ilegal
O regulador não está parado, mas os números mostram uma luta desigual. Desde 2015, o SRIJ emitiu 1 522 notificações de encerramento e bloqueou 2 501 websites ilegais. Encaminhou 49 participações ao Ministério Público. No segundo trimestre de 2025 sozinho, foram 97 notificações e 110 sites bloqueados.
O problema é que bloquear um domínio leva minutos, mas criar um novo também. Os operadores ilegais mudam de URL como quem muda de camisola, e os jogadores que já tinham conta recebem o novo endereço por email ou mensagem. É um jogo de gato e rato onde o gato está perpetuamente a correr atrás.
A APAJO defende medidas mais estruturais: bloquear métodos de pagamento portugueses (MB Way, Multibanco) nos sites ilegais, proibir a promoção por influenciadores e remover resultados dos motores de busca. Enquanto estas medidas não avançam, o mercado ilegal continua a absorver 40% dos jogadores.
Como Identificar e Evitar Casas de Apostas Ilegais
Ricardo Domingues, presidente da APAJO, é direto: “É preciso tomar medidas com urgência. Não podemos continuar a lamentar-nos sem atuar.” Mas enquanto as medidas institucionais não chegam, cada apostador pode proteger-se com verificações simples.
O passo mais básico: consultar a lista de entidades licenciadas no site do SRIJ. Se o operador não está nessa lista, é ilegal em Portugal. Sem exceções. Não importa se tem licença em Malta, Curaçao ou Gibraltar — essas licenças não são válidas em território português.
Outros sinais de alerta: o site não pede verificação de identidade no registo, aceita criptomoedas como único método de depósito, oferece apostas em eSports (proibidas no mercado legal português) ou não tem endereço de suporte em Portugal. Se vês promoções agressivas de um operador desconhecido nas redes sociais, com odds que parecem boas demais — provavelmente são. Alguns destes sites até aceitam MB Way para depositar, o que cria a ilusão de legitimidade — mas a aceitação de um método de pagamento português não significa que o operador tenha licença do SRIJ. Consulta sempre a lista do SRIJ antes de depositar um cêntimo, e se quiseres uma base sólida de informação sobre o que distingue os sites de apostas legais, temos uma análise completa sobre o tema.
